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Cadim, Cadum.

 

O trem foi lá pras bandas do interiorzão de Minas Gerais. Mais precisamente na Zona da Mata, oncê vê os matutos marradão, com um sotaque danado de doido, que inté parece ôtra língua, sô! Ali não se gasta sílaba à toa, não. Cê tem que repiá a moringa pra intendê, senão pó pidî intérprete.

 

Ocaso disso foi pelos meiados dos anos 70. Chegamos naquele lugarejo pra vê uns parentes que os véi (meus pais) não "panhavam os óio há mutcho tempo".

Quando entrou na cidade, meu pai cismou de perguntar pra primeira pessoa que avistou: — Bom dia, meu caro rapaz, você pode me dizer onde fica a casa da dona Vika, minha tia?

— Bão. veidelonje? — Sim. — Tô vêno... então porquê pergunta? Essa cadi fome, uai. Mió apia logo alí, no badoHélio, enche o buxo e puche o burro pras bandas da ladeacima.

— A tia Vika mora lá? — Não, sinhô. — então porquê ir a Ladeira acima? — Lá tem dona Soninha, irmã da dona Betinha. — Hum, e daí? — Ea te levá inté dona Betinha, que ficô viúva tadinha, e nu larga dessa tar Vika. As dus vem todomingo na missa do Padim Zeca, um grude só. Ea sabe onsua tia escondi, porque dispois qui sô Tão bateu as caçoleta, não deu mais as cara pô aqui.

— Vixi, ti Tãozim se foi? — Cotudo que tendireito, hom de respeito tava alí. Honrô as minerada, uai! No dia do entêrro, tin mais viúva que madre na sacristia do Padim.

— Obrigado, vou comer no bar do Hélio. — Bão. Ei faz uma buchada sem iguar. Vai quebão uai!. Se imbruiá os buchos, intão pedi o dedão do Técio. Tecim montava os choriço, churisso bão viu! Tecim genti quase boa, quase gostava mutcho dele, que o Sinhor o tenha num cantim reservado, quando eu fô, mió não encontrá esse sujeito.

— Tem ôtras opções? — Pções? Nun comi isso não, uai. — Xá pralá. - Quar sua graça? — E quar a sua? — perguntei primeiro uai!. — O meu é mu fáci, tendeu? — Tá legal, seo "mu fáci", vou seguindo. — Ô sinhô, não falo seu nome. — Meu nome é "mu difici." O matuto ficou bolado.

 

Como a sugestão do sujeito não apeteceu a ninguém, resolvemos prosseguir até achar outro bar, ou algum trem pra matar a fome. Não demorou muito, achamos um bar um "cadim mió". Nisso, duas senhoras vinham descendo a rua, e não é que uma delas era a tal tia Vika! Foi uma alegria danada, sô! Como já passava da uma da tarde, tia Vika nos levou pra casa dela pruma jantarada.

 

Cidade do interior é uma comédia só, trem que dá gosto. Parece que os tambores soam uníssonos e a cidade inteira já sabe que tia Vika tá recebendo visita do pessoal da cidade. Nos acomodamos na cozinha, porque mineiro recebe visita é na cozinha. Aos poucos vão chegando gente de tudo quanto é canto. Tia Vika ia apresentando: — Esse aí, é fi do Nandim, lembra? Neto do Bardão, aquela alí é a Mariinha, fia de Carminha do Gerardim da carreta. E aquele ali é Tuquinha, primo-irmão do Bilunga.

Aí deu nó! Primo-irmão? Como assim?

— Ah! Maride Doquinha viajava mutcho, aí Nenzin, cunhado, fazia as vez. Nelim nunca importô, tudo em famia. — Nelinho? — Sim, Cornélio, fi de Berro seco, tocador de berrante. E foi chegando gente e mais gente. Tia Vika observou: — Tá fartando Neco. Ei sempreparece.

 

Fogão a lenha, a todo vapor, tacho de gordura fervendo, torresmo pururucando, linguiça defumada retirada de cima do fogão a lenha, todos comendo, e comida sendo produzida sem parar: rabada, polenta, quiabo com frango. Como se não bastasse, já tinha gente providenciando o final da tarde com bolos, doces, café, pão de queijo, e queijos de tudo que é tipo. Uma maravilha da gastronomia mineira, sabíamos a hora de começar, mas não sabíamos quando ia acabar.

 

De repente, chega um sujeito magrelo demais, parecendo tímido, quietinho no canto. Quando lhe perguntaram o que ele queria comer, ele disse: — Quero cadim cadum. Fiquei intrigado, tentando desvendar essa fala. O que seria cadim cadum? Vi que tia Vika separou um prato literalmente gigante, e foi pondo tudo que tinha direito pro magreza. Aí intendi o que seria o cadim cadum. Pra não exagerar, o prato devia pesar uns três quilos. Imaginei que ele sairia dali pra distribuir com outras pessoas, mas não. O magrelo defendeu sua porção, no seu canto, deu início às garfadas generosas que levava à boca com muita firmeza, já anunciando em seus gestos que em breve terminaria na espera das sobremesas. E por último chegou o tal “mu fáci”, nome estranho tia Vika! - É do pessoár dos Facioli, Moacir Faciole, pra nuncançá a boca ficô Mufaci. Hum... Tendi...  Vem chegando Mufaci, e fala pro meu pai, sô “Mudifici”, bão vê dinovo. Tia Vika ficou bolada, “Mudifici”? Meu pai para descomplicar respondeu, é meu novo apelido uai...

As prosas e os causos correndo souto, comida bãodimais, a alegria era completa. Foi uma visita inusitada, alegria estampada em cada rosto.

O que vai querê Mufaci? Um cadim cadum, craro! E todos comemos cadim cadum...

Nossos agradecimentos à tia Vika, que com muita simplicidade e alegria nos recebeu.

Bão dimais, uai!

 

Facioli - pronúncia, Fatioli.

Mufaci - pronúncia regional, Mufachi.

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"Que alegria ter sua companhia até a última linha! Espero genuinamente que esta leitura tenha ressoado em você. Deixe seu comentário no espaço abaixo — sua reflexão é fundamental para o meu constante amadurecimento como escritor."  

 

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WALTER FIGUEIREDO
Enviado por WALTER FIGUEIREDO em 12/10/2025
Alterado em 02/09/2026
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