Rabada dos Deuses? Não, do Chef Valentin.
Um dia chuvoso, daqueles em que o céu desaba em cântaros, mas a determinação da rapaziada da sauna é infinitamente mais forte que qualquer temporal. Nada — absolutamente nada — impediria os amigos de baterem ponto na fazenda do Zé Boiadeiro. A estrada era longa, mas o trajeto já vinha acompanhado de estilo: o Viola me deu carona em sua possante Amarok, e a conversa foi tão boa que parecia palestra de TED Talk com cafezinho. Ao amigo Viola, nossos sinceros agradecimentos.
Ao chegarmos ao refúgio, o clima campestre dava as boas-vindas. Pelo pasto, podia-se ver um boi girando preguiçosamente o seu rabo, espalhando aquela fragrância peculiar e inconfundível do curral. E por falar em expectativa versus realidade, a lenda dizia que o almoço seria a rabada do Zé, mas a verdade veio à tona: não senhor, a rabada dos deuses era, na verdade, obra-prima do Chef Portuga Valentim, no sítio do Zé Boiadeiro.
Antes da rabada, uma entrada de torresmo pururucado, executado com maestria no fogão do sítio do Zé pelo Zé Gordinho, que já dava o tom do festim. Às 13h em ponto, soou a convocação oficial para assumirmos nossos postos. O buquê que subia das panelas era de estontear. A rabada simplesmente silenciou a rapaziada ansiosa: garfadas vorazes e um silêncio ensurdecedor tomaram conta da mesa. Ao sentir a explosão de sabor daquele prato, peguei-me imaginando o boi lá no pasto, balançando o rabo com uma certa ironia, como quem dizia: "Em breve comerás este rabo”.
Para acompanhar uma joia rara, brilhava soberana uma polenta de tenros milhos colhidos direto do milharal do próprio Zé (será mesmo) — tão cremosa e perfeita que parecia feita sob encomenda celestial. Mas o verdadeiro espetáculo ficou por conta do elenco reunido ao redor da mesa:
O Japa made in Taiwan tentava nos convencer de que fazer um bate e volta logo alí na China era tudo de bom.
O Sean Connery ostentava sua elegância canastrona, tomando a polenta com o mesmo charme de quem pedia um dry martini batido, não mexido.
O Senhor Human, aquele dos conceitos humanitários e dos valores éticos, que abre as portas para os intercâmbios mundial. Se tens netos, fale com ele, já garante uma ida de imediato para a Itália.
O Soneca, foi promovido a Jack Nicholson pelo CEO do Agro e o senhor Human, já rondava o fogão com os olhos semicerrados, analisando o potencial de um bom sono pós-prandial.
Professor, Sr. Elétrico, Zé Lú, e o Coroné sobrinho dos sauneiros, davam o suporte técnico e energético da mesa de dominó, enquanto Fanfarrão garantia que as gargalhadas ecoassem por todo o vale. Essa turma é viciada.
Psicólogo: (Inclinando-se para a frente, tentando uma abordagem freudiana). Mas vamos ao X da questão: o que a figura do Boi girando o rabo no pasto sob a chuva representa no seu inconsciente? E, claro, o psicólogo da turma estava ali em plantão intensivo. Sentado à mesa, ele já fazia anotações mentais profundas: o estrago na dieta era irreversível, mas a terapia em grupo nunca foi tão saborosa.
Após o banquete, a inevitável lombeira abateu a tropa. Cada um revirava os olhos de tanta satisfação — revirava tanto que quase dava para ver o próprio cérebro funcionando em modo de economia de energia. Entre causos, mentiras e mentirinhas contadas à sombra da varanda enquanto a chuva caía lá fora, percebemos que a vida na fazenda tem dessas belezas.
Saímos de lá com o estômago nas alturas, a alma leve e a certeza de que a psicanálise da rabada com polenta funciona melhor que qualquer divã.
Sentimos a falta de muitos amigos que não puderam estar conosco. Os nossos sinceros agradecimentos ao Zé Boiadeiro, que nos cedeu esse nobre espaço para nossa confraternização, ao Fanfarrão que deu o toque de recolher a rapaziada e aos amigos que se dispuseram a dar aquela carona amiga e ao Valentin que se dispos a prover todos os ingredientes.
Uau!!! Que turma! Que venha o próximo encontro!
Por Walter Figueiredo 31 de outubro de 2026
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