Do Eldorado ao Que Restou de Volta Redonda
Houve um tempo em que as terras onde hoje se ergue Volta Redonda eram embaladas pelo silêncio verde da Fazenda Santa Rita. Terra promissora, de horizontes largos e promessas de bonança, que guardava no peito o destino de mudar a história do Brasil. Com a visão de Getúlio Vargas, a calmaria rural deu lugar ao rufar dos tambores do progresso: nascia a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
A cidade do aço não era apenas um complexo industrial; era um oásis de modernidade. Quem viveu ou ouviu os causos daquela época dourada lembra do imponente Hotel Bela Vista, que abrigava personalidades ilustres do mundo todo, inclusive o presidente norte-americano Richard Nixon. Mais do que isso, Volta Redonda encurtava as distâncias com o mundo: tinha até aeroporto próprio, operando a rota regular que ligava diretamente a cidade ao Rio de Janeiro.
A CSN agia como uma verdadeira mãe protetora. Oferecia casas dignas aos funcionários, mantinha uma escola técnica de excelência, hospitais de ponta, o Recreio dos Trabalhadores e centros de treinamento esportivo que eram a inveja do continente. Era a vanguarda absoluta da América do Sul. Lá estava o colossal cinema com capacidade para mais de mil pessoas e, pasmem, equipado com ar-condicionado numa época em que isso parecia feitiçaria.
Os concursos de fanfarras alegravam a cidade, ETPC sempre campeã. Projeto Aquários, com a Orquestra Sinfônica de Isaac Karabchevsck na concha acústica, teatro GACEMSS, momentos de cultura e prazer. Campeonatos de atletismo, basquete, futebol no Recreio dos Trabalhadores.
A segurança? Impecável. Era o tipo de lugar onde os jovens podiam sair da sessão das dez da noite e caminhar de volta para casa sem o menor temor, com a alma leve, sem saber o que era o medo de um assalto.
O progresso tecnológico também batia à porta da usina: foi pelas mãos de seo Gíscaro — filho do bispo César Dacorso Filho e responsável pela instalação — que o primeiro grande computador do Brasil aterrissou na CSN. Homem de mente brilhante e coração simples, Sr. Gíscaro guardava lembranças afetuosas de meu vô Adão, com quem dividia os domingos à tarde a bordo de um caminhão para levar a Palavra e o evangelismo aos rincões da região.
E os domingos... Ah, os domingos na Cicuta! Um balneário natural de águas cristalinas, cercado pela Mata Atlântica, que fazia qualquer cidade grande parecer cinzenta. Ainda guardo na memória o cheiro da estrada e a carroceria do caminhão do avô, que levava a família inteira para desfrutar daquele verdadeiro paraíso na terra. Volta Redonda era, sem tirar nem pôr, um Eldorado.
Mas o tempo, senhor dos ventos, trouxe também as tempestades da ganância.
A cidade começou a se deteriorar nas mãos de exploradores inescrupulosos e políticos corruptos. Cresceu sem rumo, sem planejamento, devorada pelo apetite desmedido do lucro fácil. Num piscar de olhos, foram nos tirando tudo: a Cicuta, a escola técnica, os hospitais, o Recreio dos Trabalhadores.
Que sina triste abateu-se sobre ti, Volta Redonda? O povo volta-redondense, feito o sapo na panela de água morna, foi se acostumando com o calor da fervura, sem perceber que o pior vinha logo a seguir. A cidade acolhedora foi sendo entregue às mãos de facções e do crime organizado.
Hoje, os netos daqueles velhos pioneiros olham ao redor e vê um povo refém, acuado pelo medo. E no silêncio da noite, ecoa a pergunta que rasga o peito de quem conheceu a glória do passado:
Quem haverá de te salvar, Volta Redonda?
Em memória das estradas de terra, dos caminhões do vô Adão, do brilho nos olhos do Sr. Gíscaro e de uma Volta Redonda que o tempo tentou apagar, mas que vive na saudade de quem a ama.
Por Walter R Figueiredo 31 de outubro de 2026.
Que alegria ter sua companhia até a última linha! Espero genuinamente que esta leitura tenha ressoado em você. Deixe seu comentário no espaço abaixo — sua reflexão é fundamental para o meu constante amadurecimento como escritor."