Macarronada dos Deuses? Não, do Batista.
Uma quinta-feira à noite de primavera — daquelas em que o dia, com a solenidade de um profeta de bairro, já anunciava o que estava por vir. O céu se preparava para o espetáculo. Nós também. Principalmente o nosso estômago.
Havia uma massa no apê do Batista. E já sabíamos: o que sairia dali seria coisa boa. Italiano que se preza não apenas põe a mão na massa — ele a batiza, a reza em latim macarrônico e a conduz ao altar. A magia entre massa e molho não acontece por acaso; acontece por hereditariedade e genética.
Peguei o Panza e o Joka em suas casas e partimos rumo à felicidade gastronômica. Na chegada, fomos conduzidos pelo Joka por uma sequência de elevadores que mais parecia um labirinto iniciático de seita secreta. Uma figura, esse mano. Ele conhecia o prédio como quem conhece a própria alma — mal, mas com convicção. Quando finalmente entramos no elevador correto, o cheiro não deixou dúvidas: aquele era o caminho da salvação. Heverton, que não brinca em serviço, já havia chegado primeiro — pontualidade de quem sabe exatamente o que o espera e não quer perder nem a primeira rodela de salame.
Fomos recepcionados pelo anfitrião. Batista, rapaz simpático e, como todo filho de italiano, apaixonado por massa e uma boa prosa — daquelas que começam no molho e terminam na teologia, passando por política e pela vida de alguns. E assim fomos, direto para a cozinha, recebidos com entradas de patê de gorgonzola e salame da Calábria. Brindamos nossa amizade com um saboroso e belo vinho português — afinal, temos que prestigiar o nosso povo da terrinha.
A conversa foi fluindo. Falamos de tudo um pouco, e entre uma taça e outra vieram as reflexões sobre nosso posicionamento como igreja. O que sobressaiu foi claro: não queremos instituição, não queremos institucionalizar. O que está funcionando, seguimos em frente, buscando a sabedoria divina. Joka resgatou das memórias os tempos de convivência com o saudoso Pastor Colombani — momentos de muitas risadas. Foi como uma terapia em grupo, dessas em que amigos e irmãos se reúnem para balizar o que cada um pensa.
Batista nos apresentou sua esposa, sua filha e sua neta — família linda e abençoada. Logo depois chegou Ana Maria, e ali pudemos ver o milagre do Eterno. Lembramos de quando Batista, com tom embargado, pediu orações pela sua querida filha. Vê-la ali, chegando à casa de seu pai, toda alegre e feliz, nos emocionou. Deus é maravilhoso.
Panza e Batista comungaram suas raízes italianas, com as histórias de seus queridos pais. Panza destacou que seu pai era padre e que, ao conhecer sua mãe, largou a batina — esperto ele, e rápido, porque a concorrência na paróquia devia ser feroz. Mas foi excomungado pela igreja católica e carregou uma culpa indevida por muito tempo. O pai do Panza tinha uma empresa de cursos, e me lembro bem: estudei num dos cursos dele. Fortran. Pastor Colombani, muito querido e conhecido na nossa cidade nos idos de 70 e 80, se não me falha a memória. Hoje, quem passa pela Rodovia Presidente Dutra percebe o carinho da população que o acolheu ao dar seu nome a um viaduto. — e a essa altura da noite, a memória já falhava um pouco para todos.
Batista falou de seu tempo de missão no Nepal. Tempos de ver muito sofrimento de um povo, em especial crianças reféns de dominadores — mas também de ver o poder de Deus se manifestar. Batista, que o Eterno o abençoe ricamente nessas idas e vindas das missões. Eu admiro quem se dispõe a ir ao combate, na boca do leão. Não é para qualquer um.
Conversa vai, conversa vem, e o Joka, num relampejo, inquieto, manifestou um olhar 44 como quem queria dizer: "e aí, que horas será servida a massa?". E o pessoal retrucou: "Diz aí, Joka, fale logo". "É que, se for de Deus, a hora que vocês quiserem pode servir." O anfitrião cutucou: "Seja claro, rapaz. Quer que eu sirva agora ou não?". "Não disse bem isso." "Acho que você quis dizer isso sim." "Então é de Deus — sirva logo essa massa!" Joka foi guerreiro. Falou em nome da brodagem, com a diplomacia de um embaixador e a fome de um exército. Rsrsrs.
E foi servido um macarrão com molho à bolonhesa de dar inveja a qualquer bolonhês — e olha que bolonhês é um povo difícil de impressionar e fácil de ofender. Garfo e colher, nada de faca — isso fere os sentimentos ítalos, que são profundos, antigos e absolutamente inflexíveis quanto a talheres. Um silêncio ensurdecedor permeou o ambiente, pois aquilo não era uma simples macarronada. Era a macarronada do Batista. Um molho que eu nunca havia experimentado igual.
Cada garfada na massa me fazia imaginar o vento lambendo os tenros grãos dos trigais que margeiam o Mediterrâneo. O molho de tomates me remeteu à casa da vovó Lilica, quando ela me pedia para colher os rubros tomates da cerca no quintal. Hummmm. Sentir um blend de tenras carnes, de porquinhos e boizinhos... Hummm, Jesuis, é bão demais, uai. Com um vinho português que delícia: cada gole, podia-se ouvir a aldeia inteira a cantar no lagar.
E a conversa fluía. Momentos preciosos que o Papai do Céu nos proporciona para, juntos, comermos ao redor de uma bela mesa, comungarmos e orarmos. Sou grato a Deus pelos amigos que Ele nos proporciona, e aos queridos anfitriões Batista e sua esposa, pelo convite. Que o Eterno os abençoe ricamente — a esta linda família.
Por Walter Figueiredo nov/2026